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Archive for May, 2011

Livro: O Retrato de Dorian Gray (1890) – Oscar Wilde

May 22nd, 2011 No comments

Capa da Edição mais atual

Resenha: Livro proibido de Oscar Wilde faz excelente análise do poder da influência usada de forma maléfica. Sensualidade e boa aparência formam o manto em que a narrativa se cobre, criando uma personagem com características jovens quase idealizadas. Dorian Gray possui uma ânsia por prazer bem como muitos chegaram a sentir na adolescência. Tal assunto ainda é tratado com cautela pela sociedade, mas Wilde o explora demasiadamente em sua obra, que é considerada até hoje um clássico literário.

Sinopse do livro: Dorian Gray é um belo e ingênuo rapaz retratado pelo artista Basil Hallward em uma pintura. Mais do que um mero modelo, Dorian Gray torna-se inspiração a Basil em diversas outras obras. Devido ao fato de todo seu íntimo estar exposto em sua obra prima, Basil não divulga a pintura e decide presentear Dorian Gray com o quadro. Com a convivência junto a Lorde Henry Wotton, um cínico e hedonista aristocrata muito amigo de Basil, Dorian Gray é seduzido ao mundo da beleza e dos prazeres imediatos e irresponsáveis, espírito que foi intensificado após, finalmente, conferir seu retrato pronto e apaixonar-se por si mesmo. A partir de então, o aprendiz Dorian Gray supera seu mestre e cada vez mais se entrega à superficialidade e ao egoísmo. O belo rapaz, ao contrário da natureza humana, misteriosamente preserva seus sinais físicos de juventude enquanto os de seu quadro envelhecem e sofrem com as marcas da idade e vida pecaminosa. A verdade é que Dorian fizera um pacto, onde dera sua alma em troca de juventude eterna.

O excelente prefácio de Wilde já traduz toda a inteligência da obra, nele está a famosa frase do autor “Não existe livro moral nem imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo”. É inevitável não encontrar traços do movimento Realismo na obra, que tenta explorar o porquê da corrupção de Dorian. Para ser sincero, prefiro muito mais a frase “A aversão do século XIX ao Realismo é a fúria de Calibã ao reconhecer sua imagem num espelho”, pois expressa que a narrativa desmascarará aspectos politicamente corretos da sociedade, que muitas vezes fora hipócrita naquela época.

Wilde foi condenado a ficar na cadeia e a fazer trabalhos forçados ao declarar que era homossexual. Seria muito desrespeito meu não dizer que a obra possui algumas indiretas ao tema, Basil possui uma admiração obsessiva por Dorian e a declara em certo capítulo, porém não vai além disso. Ao contrário da adaptação cinematográfica de 2009, no livro Dorian mostra-se heterossexual (apesar de não sabermos o que ele apronta em suas extravagâncias noturnas), mas o longa possui cenas que indicam o bissexualismo. Acredito que isso seja uma diferença importante da obra para o filme, afinal Dorian não se sente atraído por Basil e, se houvesse atração, não creio que mais tarde o rapaz cometeria aquele crime (não revelarei qual para não estragar).

Cartaz da adaptação de 2009. Lançada no Brasil em 2011.

Uma das coisas mais interessantes do livro são seus personagens, Basil e Henry (os amigos mais próximos de Dorian) têm personalidades fascinantes. Não são filósofos ou grandes intelectuais, porém suas ações e falas refletem idéias que chamam a atenção do leitor desde o princípio. A idolatria de Basil pela beleza de Dorian não é apenas uma questão de admiração e revela uma dependência artística que vai além da atração e é exatamente isso que o leitor tenta compreender, quais as razões que tanto puxam o artista à decadência após perder sua mais famosa inspiração. Harry/Lorde Henry é o ceticismo em pessoa, a inversão metafórica de tudo o que é politicamente correto, o personagem abomina qualquer visão de felicidade sem aparências e numa de suas frases marcantes diz para Dorian “Eu represento para você todos os pecados que você nunca se animou a cometer”, com isso ele sente um prazer gigantesco em influenciar o rapaz até imprimir completamente sua personalidade mesquinha naquele que um dia fora um adolescente ingênuo e puro. Até esse ponto ele parece ser bem clichê, mas não é, muito pelo contrário, possui uma riqueza de aprofundamento que vai além de um simples ex-garanhão mesquinho. Harry representa a fúria da perda de oportunidades pelo envelhecimento, a infelicidade conjugal, acima de tudo é invejoso e busca prazer naquilo que as pessoas repudiam em seus pensamentos. O que nos deixa curioso é que deve ter ocorrido alguma coisa para que seus conceitos fossem tão podres, ele tinha consciência disso, mas queria criar o caos em Dorian para ser telespectador de toda sua desgraça no corpo de outra pessoa.Bom, depois de passarmos pela dupla de amigos, vamos ao personagem central. Dorian Gray é a personificação daquilo que um dia muitos desejaram ter quando adolescentes: dinheiro, admiração geral, beleza, amor de várias damas e……. o principal: tudo seria eterno. Dorian é descrito como um rapaz de beleza tão extraordinária, que se apaixonou pela própria imagem, nesse caso Dorian é uma metáfora de Narciso (que, na mitologia grega, era tão belo que não conseguiu parar de se olhar ao ver pela primeira vez seu reflexo na água, o que o fez cair no rio e morrer afogado). Dorian teve noção de sua beleza apenas quando contemplou seu retrato pronto, logo após ouvir a filosofia de Harry sobre os danos da perda da beleza juvenil. Sua vaidade associada ao medo da infelicidade o influenciou a fazer o pacto com a entidade, onde seu retrato tornou-se a representação de sua alma, que se degradava aos poucos com sua devassidão e crueldade até se tornar um espectro maldito quase irreconhecível do passar dos anos e pecados do rapaz, contrastando o tempo todo com a beleza jovem e imaculada que Dorian carregava só no exterior. Na verdade, Dorian e seu retrato sempre foram o espelho da burguesia, que era bem vista na época, mas que cedia à extravagâncias inimagináveis.

Narciso

Associando O Retrato de Dorian Gray aos livros atuais voltados ao público juvenil (aqueles romancezinhos com máscara de sombrio que propõem algo ousado), acredito que a obra de Oscar Wilde trata de fatos muito mais concretos e interessantes da época da adolescência. O talento que o autor teve para dissertar uma denúncia sobre a influência é algo que deve ser melhor considerado. A obra de Wilde investiga o amadurecimento de idéias vindas dos outros e suas conseqüências. Em contrapartida, quem não se conforma com esse tema, pode gostar do livro por apresentar a personalidade destrutiva de Dorian e seu retrato macabro, as ações dele às vezes são imprevisíveis e não raro dá para imaginar que a entidade o domina. No término da leitura, o que percebemos é que Wilde escreveu há mais de um século um excelente estudo da juventude, desvendando a ânsia que os jovens sentem pelo prazer e suas conseqüências através de um personagem cuja mente foi moldada para esquecer restrições e enganar a mente com sensações.

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Pânico 4 (Scream 4) 2011

May 13th, 2011 No comments

Crítica: Quarto filme da série do psicopata Ghostface surpreende, fazendo uso de muita metalinguagem, indiretas à nova geração, zombando de clichês e talvez conseguindo superar a trilogia.

Pânico 4 inicia a história com Sidney Prescott que agora é autora de um livro de auto-ajuda, e retorna para Woodsboro na última parada de sua turnê para promover o lançamento. Lá, ela reconecta-se com o sherife Dewey e Gale- agora casados – e também com sua prima Jill e sua tia Kate. Infelizmente, o retorno de Sidney também traz Ghostface de volta, colocando Sidney, Gale e Dewey, junto com Jill, seus amigos e toda a cidade de Woodsboro, em perigo.

A série Scream nunca foi algo muito inteligente, a verdade é que os filmes dela não devem ser levados muito a sério. Acredito que seja injusto compará-la a um desses clássicos de assassinos ou um longa com história verdadeiramente original. A verdade é que Scream não dá para ser encarado como terror, sabendo disso, o diretor (Wes Craven) faz uso de várias indiretas para divertir o público cinéfilo. Cartazes de produções cults podem ser vistos e quem entende de cinema de horror vai gostar das indiretas.

Wes Craven tem sofrido muitas críticas da mídia atual, principalmente pelo seu último longa, A Sétima Alma. A abertura de Pânico 4 serve para deixar as coisas mais leves, é óbvio o interesse do diretor em agradar ao público, isso fica claro durante toda a projeção. Quem nunca pensou em mandar calar a boca daquele amigo chato que, ao invés de aproveitar e se divertir com o filme, fica o tempo todo falando dos pontos negativos? (lembrem-se disso quando assistirem). O prólogo serve para lançar uma indireta (ou seria direta?) aos críticos que não sabem se divertir.

A nova geração é mostrada de foma extremamente cética, afinal após anos de massacres nos filmes, os jovens já estão cansados de verem a mesma situação se repetir com todas as protagonistas, geralmente esteriotipadas dos pés a cabeça. O bom de Wes Craven sempre foi dar voz às personagens antes mal exploradas, lembrem-se da Nancy de A Hora do Pesadelo 1984. Infelizmente as pessoas não percebem isso e após ele mostrar esse método em seus primeiros trabalhos outros diretores fizeram a mesma coisa e a inteligência feminina ganhou mais destaque nos longas de horror.

Sidney retorna, mas nessa continuação, como seria correto em qualquer outra após um recesso de vários anos, ela parece uma protagonista enferrujada tendo que enfrentar psicopatas mais doentes e ainda que lidar com a nova geração, que não recebe mais tão bem aquela mocinha valente de 7 vidas. O vilão da vez é a cara da nova década (sem ironias).

Uma das caracterísitcas de Craven é fazer uma ponte entre seus personagens e as pessoas da vida real. A maneira mais rápida de fazê-la dessa vez foi incluir itens da moda, o assassino não só mata, como também exibe seus crimes direto na internet e vai parar nos celulares tão rápido quanto, por isso há tanto falatório sobre facebook, twitter e etc, afinal, um psicopata tem que estar atualizado (Samara, agora a onda é Blu-Ray).

Infelizmente, Wes Craven parece travar uma luta durante todo o filme contra seu pior inimigo: a previsibilidade. Apostando em sustos, que, apesar de não serem tão fáceis, já não surpreendem. A maior contribuição do diretor para o quarto episódio da série é justamente a metalinguagem, Craven faz críticas ácidas aos remakes. Lembrando que seu melhor filme (A Hora do Pesadelo) foi refilmado em 2010 para ganhar um previsível ar emo e afundar de vez o clássico de 1984. Não se trata de uma vingança, mas de um alerta: não adianta fazer refilmagens. O clímax de Pânico 4 é justamente o remake versus o original. É muito interessante ver que um diretor famoso se apropriou dessa idéia e, ainda que Pânico 4 não dê medo, consegue ser um entretenimento divertido e mais inteligente que seus antecessores.

Diretor: Wes Craven.

Elenco: Neve Campbell, David Arquette, Courteney Cox, Emma Roberts , Hayden Panettiere, etc.

Trailer: