Quando Chega a Escuridão (Near Dark) 1987
Crítica: Antes de ganhar o Óscar de Melhor Direção por Guerra ao Terror (The Hurt Locker, 2009), Kathryn Bigelow dirigiu um filme de vampiros, entrando num mercado quase exclusivamente masculino. Admito que até alguns meses atrás ainda não tinha lido nada a respeito dessa produção e lamento isso porque, desde que o vi, já está na minha lista dos dez melhores filmes de vampiros. Lá fora, já é considerado um clássico no nível de Os Garotos Perdidos (The Lost Boys, 1987).
Caleb Colton (Adrian Pasdar) é um rapaz que vive com o pai e a irmãzinha numa fazendo do meio-oeste, um dia interessou-se por uma moça de passagem pela cidade, Mae (Jenny Wright), e lhe oferece carona. Os dois conversam e Mae diz que ele nunca havia conhecido uma garota como ela, entre os beijos Caleb leva uma mordida no pescoço enquanto a garota sai correndo. O amanhecer não demora e o rapaz começa a se queimar no sol, ele não consegue chegar a sua casa porque antes disso é sequestrado e colocado dentro de uma caminhonete, a partir daí ele terá que conviver com um grupo que percorre o país evitando suspeitas e se alimentando de sangue para sobreviver.
O cinema vampiresco já está quase defasado, sempre há algo naquele filme atual que já fora contado em algum longa anterior. É nessas horas que ainda tenho a esperança de assistir a algum filme que desperte meu interesse no tema, por isso gosto dos longas oitentistas, são tão criativos que não entendo como décadas depois não aparece uma história, de fato, original ou mesmo que faça melhor uso das idéias antigas. Talvez a solução seja uma direção diferente e inovadora, felizmente é isso que Bigelow nos traz.
Creio que uma das maiores dificuldades encontradas nos filmes em geral seja expressar em cenas todo o magnetismo e sensualidade entre um casal, não é algo que possa ser colocado apenas em palavras ou em algum acontecimento que faça um admirar o outro. Os movimentos são como uma coreografia em que os atores devem estar em sintonia, afinal a sedução também consiste em chamar a atenção de alguém sem alarmar a situação. O jogo de olhares é fundamental numa cena de sedução, para que o telespectador compreenda o porquê da proximidade do casal. É nessa coreografia (e às vezes na trilha sonora) que está o problema, principalmente se tratando de vampiros.
Na maioria dos livros, essas criaturas são descritas como atraentes ao extremo, talvez sem uma aparência admirável, mas com o jogo da sedução muito bem ensaiado, como se os olhos fossem projetados para atrair a outra pessoa. É raro de assistir a uma cena num longa de vampiros que realmente nos faça acreditar no tamanho da atração que a personagem pode estar sentindo em contato com o sanguessuga, mas Bigelow consegue essa proeza sem apelar para lentes de contato e música pop. A cena do carro onde ocorre um dos primeiros beijos é acompanhada de closers peculiares, música sombria e câmera lenta, além de uma iluminação mais escura, a câmera não faz giros chatos nem movimentos bruscos, isso dá uma particularidade maior à cena. Porém o mérito maior dessa parte fica para a atriz Jenny Wright, praticamente uma “achada”, ela mostra que tem muito talento, além de possuir uma beleza exuberante e conseguir ser bastante sensual em seus movimentos (reparem a maneira como ela limpa a boca de sangue na cena do bar para se aproximar de uma nova vítima), sinceramente ainda estão para criar uma vampira mais sensual que sua personagem Mae.
Uma das coisas que mais desagrada os fãs nos filmes de vampiros recentes é a falta de crueldade, esse ingrediente é essencial em qualquer longa das criaturas, afinal não se pode passar uma eternidade exterminando os animais de um bosque (Crepúsculo). Quando Caleb Colton (Adrian Pasdar) foi transformado, tinha que saber as regras que a nova vida (ou morte) lhe traria, imaginei que a “galera” tivesse um meio de sobreviver sem matar, mas a primeira coisa que ele foi instruído é a matar toda noite. Quem lhe ensinaria isso seria sua namorada Mae. É incrível o aspecto de maldade que a moça, antes meiga, possui no momento de cometer um assassinato, ela é mais durona que o caubói.
Uma das melhores cenas é a do bar, onde ocorre uma chacina sem piedade com os vampiros alimentando-se de humanos. Nela podemos conhecer um dos principais vilões, Severen ( Bill Paxton) é cruel e cara-de-pau como se fosse um Lestat dos anos 1980. Bill Paxton está excelente, assim como o resto do elenco, incluindo o ex-ator-mirim, Joshua Miller. É aceitável que os conceitos do grupo só são policitamente corretos se incluirem algo que forceça prazer aos vampiros, por isso todo o bando também é visto como vilão pelas suas perversidades e falta de compaixão, características bem vindas no gênero.
O final pode ser algo de muitas críticas por ser bem diferente do que costumamos ver, mas isso é uma das coisas que dá fôlego ao filme, talvez esse fim seja a maior contribuição que ele gerou para as produções vampirescas, todos já estão acostumados à falta de conclusão, estava na hora de alguém criar um desfecho diferente.
Talvez o maior mérito de Near Dark seja a ousadia de impor uma narrativa que misture vários gêneros: ação, terror, romance, faroeste, etc. Acredito que esse filme ainda sofra um pouco do preconceito das pessoas por incluir romance, mas comparações com Crepúsculo não têm muito fundamento, visto que Near Dark foi lançado mais de uma década antes e não ter o estereótipo da moça que aguarda o rapaz perfeito ou vice-versa, aqui a fera é a moça e o protagonista só buscava uma noitada com ela antes de sofrer a transformação, a sorte é que eles se gostaram, não que houve um reconhecimento relâmpago de paixão. O que mais me admirei é que ele não aparenta muito ser da década de 1980, a trilha sonora (muito boa, por sinal) não têm tanto aquela batida eletrônica, além da maneira como a trama caminha também não ser tão comum da época, se tivesse sido feito há alguns anos atrás não teria tantas mudanças (por sinal, a refilmagem foi cancelada após a estréia de Crepúsculo). Infelizmente, é muito raro encontrar esse filme no Brasil por não ter sido lançado em DVD por aqui.
Direção: Kathryn Bigelow.
Elenco: Adrian Pasdar, Jenny Wright, Lance Henriksen, Bill Paxton, Jenette Goldstein, Tim Thomerson, Joshua John Miller, Marcie Leeds, etc.
Trailer:
A famosa cena de sedução que eu citei:









